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De Herman Hesse Tradução de Herbert Caro


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SIDARTA

De Herman Hesse


Tradução de Herbert Caro

Digitalizada a 20ª Edição

Editora Record

Título original alemão: SIDDHARTHA

Copyright - 1950

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SUMÁRIO

PRIMEIRA PARTE


O Filho do Brâmane

Com os Samanas

Gotama

O Despertar



SEGUNDA PARTE
Kamala

Entre os Homens Tolos

Sansara

À Beira do Rio



O Balseiro

O Filho


Om

Govinda
Notas

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Sobre o Livro e o Autor:
HERMANN HESSE
"Toda a vida de Hesse, até o último dia, foi uma série de fugas", escreveu Otto Maria Carpeaux na orelha da 1ª edição de Sidarta. "E cada uma dessas fugas foi uma volta: contra a casa paterna; contra o cristianismo; contra a escola; contra a vida burguesa; contra a guerra e contra o nacionalismo.

Hesse sempre foi e sempre ficou um rebelde contra os poderes deste mundo, temporais e espirituais. Sua vida confirma-lhe a vocação de grande poeta, de altiva independência.

"As estações nesse caminho são as grandes obras de Hesse. Marcam as soluções em que o rebelde encontrou, por momentos, a paz, acreditando viver em harmonia consigo mesmo. Para tanto, o poeta percorreu espiritualmente o mundo, em busca de credos mais autênticos que os abusados do Ocidente, e uma dessas peregrinações o levou, também, fisicamente, para a Índia.

"O budismo de Hesse não é quietista nem evasionista; seu livro 'Viagem ao Oriente' é mesmo um dos mais rebeldes que escreveu.

Tampouco tem pontos de contato com o budismo ginástico que foi descoberto pelos 'beatniks' americanos, 'rebeldes sem causa'. A rebelião de Hesse tem causa: é a paz do mundo, a externa e a interior. Seu budismo não é o Zen japonês, mas o indiano, o autêntico. A vida de Sidarta parece-se com a do próprio Buda. Mas também se parece coma do próprio Hesse, que experimentou todas as possibilidades dá existência humana até reconhecer a profunda doutrina da identidade de tudo que é vivo: idênticos são o pecado e a santidade, a sabedoria e a loucura e, enfim, a vida e a morte. Hermann Hesse foi um grande poeta. Também foi um grande sábio."
Entregue ao público leitor de língua alemã em 1931, juntamente com 'O Último Verão de Klingsor', este também saído no Brasil com o selo da Record, Sidarta é o romance em que a influência da extensa permanência do Autor no Oriente se revela mais madura e conclusiva, mais ainda do que em 'Aus Indien Aufzeichnungen einer indischen Reise', seu livro de impressões publicado logo após regressar da Índia. E como acontece com todas as obras do grande escritor alemão, Prêmio Nobel de Literatura em 1946, Sidarta mantém um interesse permanente e universal, que explica o entusiasmo que as poesias e romances de Hermann Hesse têm provocado em gerações de leitores em todo o mundo.
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Sobre a digitalização deste livro:
Assim como esse livro marcou minha vida, talvez possa fazer algo por você.

O trabalho que investi aqui para digitalizar essa obra serve também como protesto pelo alto valor dos livros publicados no Brasil.

Se você foi tocado por alguma obra e tiver condições de fazer o mesmo que fiz, conseguiremos levar esse sentimento para todos!
Quando passar esse livro para frente, favor deixar esse manifesto.

Efetuado em formato 'somente texto' para utilização em qualquer editor de texto, computador, Palm, etc., para ser formatado à vontado do leitor.


Um abraço de Irmão e Boa leitura!

Inverno de 2004.


Para sugestões e correções, escreva para:
sidharta@bol.com.br - com 'h' mesmo - sidharta@bol.com.br
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PRIMEIRA PARTE

O FILHO DO BRÂMANE
À sombra da casa, ao sol da ribeira, perto dos barcos, na penumbra do salgueiral, ao pé da figueira, criou-se Sidarta, belo filho de brâmane, jovem falcão, junto com Govinda, seu amigo, filho de brâmane. O sol tostava-lhes as claras espáduas, à beira do rio, durante o banho, por ocasião das abluções sagradas e dos sacrifícios rituais. A sombra insinuava-se-lhe nos olhos negros, quando ele estava no mangueiral, entretendo Sidarta com jogos infantis, ouvindo o canto da mãe, presenciando os sacrifícios rituais, escutando os ensinamentos do pai, o erudito, ou assistindo aos colóquios dos sábios. Havia muito que Sidarta participava dos colóquios dos sábios. Junto com Govinda, já realizava torneios de eloqüência; junto com Govinda, já se exercitava na arte de contemplar e nos serviços de meditação. Já sabia pronunciar silenciosamente o "OM" (1) (Notas ao final da obra), a palavra das palavras; sabia dizê-lo, silenciosamente de Sidarta para Sidarta, ao aspirar o ar e proferi-lo, silenciosamente, para fora, ao expelir o ar, com a alma concentrada e a fronte aureolada pelo esplendor da inteligência lúcida. Já era capaz de perceber no íntimo da sua natureza a presença do "Átman" (2), indestrutível, uno com o Universo.

O coração do pai vibrava de alegria pelo filho dócil, ávido de saber. Pressentia nele um sábio, um sacerdote, um príncipe entre os brâmanes.

O peito da mãe enchia-se de delícia, sempre que o olhava, observando-lhe o modo de caminhar, de sentar-se, de erguer-se, o modo de Sidarta, o belo, o forte, que lá passeava com suas pernas delgadas e a saudava com perfeito recato.

Nas almas das jovens filhas de brâmanes nascia o amor, cada vez que Sidarta andava pelas ruas da cidade, com a testa luzente, os olhos de um rei, a cintura esbelta.

Mais do que todos os outros, porém, adorava-o Govinda, seu amigo, filho de brâmane. Amava o olhar de Sidarta, a voz meiga, a postura, a primorosa correção dos gestos; amava tudo quanto Sidarta fazia ou dizia; e, antes de mais nada, amava-lhe o espírito, os pensamentos sublimes, fervorosos, o ardor da vontade, a alta vocação. Govinda tinha certeza de que o amigo jamais se tornaria um brâmane comum. "Esse aí nunca será nem indolente oficial de templo, nem ganancioso mercador de fórmulas mágicas, nem orador vaidoso e vazio, nem tampouco sacerdote perverso, bifronte. Mas, ainda menos, chegará a ser ovelha bonachona, estúpida, em meio ao rebanho de outras iguais. Nunca!" E o próprio Govinda, por sua vez, não tinha a menor intenção de ser um brâmane qualquer, tal como existem aos milhares. Queria seguir os passos de seu adorado e maravilhosos Sidarta e se este um dia se transformasse num deus, entrando no círculo dos que resplandecem ao longe, então o acompanharia Govinda, como seu amigo, seu sequaz, seu servo, seu lanceiro, sua sombra.

Assim todos amavam Sidarta. A todos causava ele alegrias. Para todos, era fonte de prazer.

Mas a si mesmo, Sidarta não se dava alegria. Para si, não era nenhuma fonte de prazer. Enquanto passeava pelas sendas rosadas do figueiredo, enquanto se mantinha sentado na penumbra azulada do bosque da contemplação, enquanto abluía o corpo no cotidiano banho expiatório, ou fazia sacrifícios rituais no mangueiral envolto em sombras profundas, fazendo gestos de primorosa correção, despertando amor em toda a gente, deliciando a todos, não sentia, ainda assim, nenhuma satisfação em sua própria alma. Visões acometiam-no e também pensamentos irrequietos, brotados das águas do rio, a faiscarem nos astros da noite, a fundirem-se sob os raios do sol. Devaneios assomavam-lhe aos olhos. O desassossego do coração invadia-o vindo da fumaça dos sacrifícios, do som assoprado dos versos do "Rig-Veda" (3), dos ensinamentos dos brâmanes anciãos.

Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo, de tranqüilizá-lo, de nutri-lo, de bastar-lhe. Começava a vislumbrar que seu venerando pai e seus demais mestres, aqueles sábios brâmanes, já lhe haviam comunicado a maior e melhor parte dos seus conhecimentos: começava a perceber que eles tinham derramado a plenitude do que possuíam no receptáculo acolhedor que ele trazia em seu íntimo. E esse receptáculo não estava cheio; o espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração não se sentia saciado. As abluções, por proveitosas que fossem, eram apenas água; não tiravam dele o pecado; não curavam a sede do espírito; não aliviavam a angústia do coração. Excelentes eram os sacrifícios e a invocações dos deuses - mas que lhe adiantava tudo isso? Propiciariam os sacrifícios a felicidade? E quanto aos deuses? Foi realmente Prajapati quem criou o mundo? E não o Átman? Ele, o único, o indivisível? Não eram os deuses figuras criadas da mesma forma que tu e eu, perecíveis, dependentes do tempo? Seria portanto, bom e acertado oferecer sacrifícios aos deuses?

Era isso realmente uma atividade sensata, sublime? Quem merecia imolações e reverência, senão Ele, o único, o Átman ? E onde se podia encontrar o Átman, onde morava Ele, onde pulsava o Seu eterno coração, onde, a não ser no próprio eu, naquele âmago indestrutível que cada um trazia em si? Mas, em que lugar, em que lugar achava-se esse eu, esse âmago, esse último fim? Não era nem carne nem osso, nem pensamento nem consciência, segundo afirmavam os mais sábios. Onde, onde existia então? Para chegar até ele, até ao eu, até a mim, ao Átman - haveria qualquer outro caminho que valesse a pena procurar? Ai dele!, ninguém lhe indicava tal caminho, ninguém o conhecia, nem o pai, nem os mestres e os sábios, nem os sagrados cânticos do ritual dos sacrifícios! Tudo sabiam eles, os brâmanes com seus livros santificados; tudo sabiam; com tudo se preocupavam, com tudo e mais ainda, desde a criação do mundo e a origem da fala, dos alimentos, da aspiração e da exalação até às categorias dos sentidos e às façanhas dos deuses! Sabiam inúmeras coisas, mas que valor tinha toda essa sabedoria para quem ignorasse aquilo que era uno e único, o mais importante, ao lado do qual coisa alguma tinha importância?

Era bem verdade que numerosos versos dos livros sagrados, sobretudo dos upanixades do "Sama-Veda" (4), referiam-se a esse quê derradeiro, mais íntimo. Que versos maravilhosos! "Tua alma é o mundo inteiro" - rezava um deles e estava escrito que o homem durante o sono, o sono profundo, entrava no próprio âmago e habitava o Átman. Sabedoria milagrosa residia nesses poemas. Todos os conhecimentos dos mais sábios encontravam-se ali reunidos, puros qual mel colhido pelas abelhas. Não, absolutamente não convinha desprezar a imensa quantidade de saber que lá estava armazenada e conservada por inúmeras gerações de brâmanes eruditos... Mas, onde se achariam os brâmanes, onde os sacerdotes, os sábios ou os ascetas que lograssem não somente conhecer senão também viver essa profunda sabedoria? Onde estaria o homem perito que fosse capaz de realizar aquele passe de mágica que transportasse a familiaridade com o Átman desde o sono para o estado de vigília, para a vida de todos os momentos e a demonstrasse por atos e palavras? Sidarta tinha contato com grande número de venerandos brâmanes e, em primeiro lugar, com seu pai, homem puro, letrado, sumamente digno de reverência. Admirável, sim, era o pai, no seu comportamento calmo, distinto. Pura era sua vida; ponderada, sua maneira de falar; idéias delicadas e nobres residiam atrás da sua testa. Quem poderia, porém, afirmar que esse homem, que tanta coisa sabia, levava uma existência feliz? Não seria também ele um ,pesquisador acossado pela sede? Não se sentia impelido a beber, insaciável, uma e outra vez nas fontes sagradas, a fim de abrevar-se em sacrifícios, livros, colóquios com outros brâmanes? Por que era preciso que tal ser incensurável se lavasse diariamente de seus pecados, empenhando-se dia a dia naquela incessante purificação? Não mora nele o Átman? Não lhe brotava do fundo do coração o manancial dos mananciais? Esse manancial, cumpria encontrá-lo dentro do próprio eu, para apossar-se dele! Todo o resto era apenas busca, desvio, equivoco.

Tais eram os pensamentos de Sidarta, a sua sede, o seu sofrimento.

Freqüentemente recitava de si para si os versetos de um upanixade de Xandogia: "Deveras, o nome do "Brama" (5) é "satiam" (6) e quem tiver conhecimento disso entrará todos os dias verdadeiramente no mundo celeste." Amiúde, esse mundo celeste descortinava-se-lhe bem próximo, mas jamais ele conseguiu alcançá-lo, jamais saciou inteiramente a sede. E entre todos os eruditos que conhecia, entre os pensadores mais sábios cujos ensinamentos lhe eram ministrados, não havia nenhum que tivesse chegado até lá, pondo o pé no mundo celeste e matando a sede perene.

- Govinda! - disse Sidarta ao amigo - Govinda, meu caro, vem comigo até à figueira. À sua sombra, entreguemo-nos á meditação.

Encaminharam-se para a árvore. Assentaram-se, Sidarta num lugar, e Govinda, noutro, a vinte passos de distância. Enquanto tomava assento e se dispunha a pronunciar o Om, Sidarta, num murmúrio, repetia os versos:

"Om é arco,- alma é a seta;

Brama é o alvo da seta,-

Cumpre feri-lo constantemente."

Decorrido o tempo habitual do exercício de meditação, levantou-se Govinda. Anoitecera. Convinha fazer a ablução noturna. E ele chamou Sidarta pelo nome. Mas este não respondeu. Mantinha-se absorto, com os olhos fixamente cravados num ponto muito longínquo. A ponta da língua salientava-se um pouco entre os dentes. Era como se ele não respirasse. Assim se quedava Sidarta, envolto na meditação, a pensar no Om, a seta da alma enviada em direção ao Brama.

Certa feita, passava pela cidade de Sidarta um grupo de samanas, ascetas peregrinos, três homens macilentos, extintos, nem velhos nem moços, de ombros sangrentos, cobertos de poeira. Andavam quase nus, tostados pelo sol, cercados pela solidão, estranhos e hostis para com o mundo, forasteiros e magros chacais em pleno território dos homens. Atrás deles fluía, cálida, uma aura de paixão silenciosa, de serviço destruidor, de cruel aniquilamento do próprio eu.

À noite, após a hora da contemplação, Sidarta dirigiu-se a Govinda:

- Meu amigo, amanhã, de madrugada, Sidarta irá ter com os samanas. Ele mesmo se tornará um samana.

Govinda empalideceu, ao ouvir essas palavras. No rosto impassível do companheiro lia-se a decisão inalterável, qual seta despachada do arco. Imediatamente, num abrir e fechar de olhos, percebeu Govinda o que nesse instante começava a acontecer: que Sidarta iniciava a sua jornada, que seu destino se punha a germinar e, simultaneamente, o seu próprio também. O semblante de Govinda ficou lívido como uma casca de banana seca:

- Ò Sidarta! - exclamou. - Achas que teu pai te permitirá isso?

Sidarta olhou-o como quem desperta do sono. Com a rapidez de um raio, decifrava na alma de Govinda o pavor e a abnegação.

- Olha, Govinda! - sussurrou. - Não desperdicemos palavras. Amanhã, ao primeiro clarão do dia, meu caro amigo, Sidarta há de começar a vida dos samanas. Não fales mais nesse assunto.

Sidarta entrou na salinha, onde o pai estava sentado numa esteira de ráfia. Colocou-se atrás dele e ali permaneceu, até que o outro notasse a sua presença.

- És tu, Sidarta? - disse o brâmane. - Dize-me então o que desejas comunicar-me.

- Com a vossa permissão, meu pai... Vim dizer-vos que é meu desejo abandonar amanhã esta casa e encaminhar-me aos ascetas. Almejo tornar-me um samana. Oxalá meu pai não se oponha à minha intenção.

O brâmane manteve-se calado e assim ficou por tanto tempo que na janelinha as estrelas mudaram de posição, tomando outro aspecto, antes que o silêncio que pairava na salinha chegasse a seu fim. Silencioso, imóvel, de braços cruzados, conservava-se o filho; silencioso, imóvel conservava-se o pai na esteira; e as estrelas singravam pelo céu. Finalmente falou o pai:

- Não convém ao brâmane proferir palavras violentas ou iradas. Mas o desgosto agita-se no meu coração. Nunca mais desejo ouvir da tua boca semelhante rogo.

Lentamente levantou-se o brâmane. Sidarta continuava mudo, os braços cruzados.

- Que esperas? - indagou o pai.

- Vós o sabeis - disse Sidarta.

Agastado, o pai saiu da salinha. Ainda agastado, dirigiu-se ao quarto e deitou-se.

Uma hora após, não podendo conciliar o sono, o brâmane pôs-se de pé. Caminhou pelo recinto. Saiu da casa. Espiou através da janela da sala. Viu como Sidarta se mantinha imóvel, de braços cruzados. Muito clara, luzia a túnica branca. Com o coração inquieto, o pai voltou ao leito.

E reaparecia, outra hora depois, e reaparecia decorridas mais duas horas. Olhava pela janelinha. Via como Sidarta permanecia de pé, ao luar, à luz dos astros, nas trevas. E de hora em hora, o pai ressurgia, silenciosamente. Espreitava a salinha, observava o vulto imóvel, enchia o coração de cólera, enchia-o de desassossego, enchia-o de medo, enchia-o de mágoa.

E, na última hora da noite, antes do amanhecer, retomou mais uma vez. Entrou na salinha e olhou o jovem que lá se quedava de pé e lhe parecia muito grande, como que estranho.

- Sidarta - disse - que esperas?

- Vós o sabeis.

- Tencionas, por acaso, conservar-te assim, apenas aguardando que venham a manhã, o meio-dia, a noite?

- Hei de conservar-me assim, aguardando.

- Ficarás cansado, Sidarta.

- Ficarei cansado.

- Adormecerás, Sidarta.

- Não adormecerei.

- Morrerás, Sidarta.

- Morrerei.

- E preferes morrer a obedecer teu pai?

- Sidarta sempre obedeceu seu pai.

- Então desistirás do teu propósito?

- Sidarta fará o que lhe ordenar seu pai.

O primeiro clarão da madrugada invadia a salinha. O brâmane notou que os joelhos de Sidarta tremiam levemente. Mas no seu rosto não se deparava nenhum tremor. Os olhos fitavam um ponto muito distante. Foi quando o pai se deu conta de que Sidarta já não se achava junto dele, nem no torrão natal, pois que acabava de separar-se de ambos.

O pai colocou a mão no ombro do filho.

- Hás de embrenhar-te no mato - disse - para que possas ser um samana. Se encontrares a felicidade no mato, volta e ensina-me. Se encontrares desilusões, procura-me novamente e juntos sacrificaremos aos deuses. Agora vai-te. Abraça tua mãe e dize-lhe aonde te encaminhas. Para mim, está na hora de ir ao rio, a fim de fazer a primeira ablução.

Tirou a mão do ombro do filho e saiu. Sidarta cambaleou, quando tentava pôr-se em movimento. Mesmo assim, dominou os seus membros. Depois de inclinar-se diante do pai, foi ter com a mãe, para cumprir com a ordem paterna.

Quando abandonava a cidade ainda silenciosa, à luz da incipiente madrugada, caminhando devagar, com as pernas enrijecidas, avistou nas proximidades da última cabana um vulto que ali estava acocorado. Era Govinda. Ergueu-se e foi com Sidarta, o peregrino.

- Vieste mesmo - disse Sidarta, sorrindo.

- Vim - confirmou Govinda.


COM OS SAMANAS
À noite do mesmo dia alcançaram eles os ascetas, aqueles mesmos esqueléticos samanas, e pediram-lhes licença para acompanhá-los. Prometeram obedecer-lhes e foram aceitos.

Sidarta deu as suas roupas a um brâmane indigente que se encontrava à beira da estrada. Apenas ficou com a tanga e a manta parda. Daí por diante, limitava-se a fazer uma única refeição por dia e deixava de comer alimentos cozidos. Jejuou durante quinze dias; durante vinte e oito dias. A carne sumia-lhe das pernas e das faces. Fervorosos devaneios bruxuleavam em seus olhos encovados. Nos dedos ressequidos cresciam unhas compridas. Do queixo pendia a barba seca, hirsuta. Seu olhar tornava-se glacial, sempre que deparava com mulheres. Desdenhosamente crispava-se-lhe a boca, cada vez que, ao atravessar uma cidade, topasse com pessoas bem vestidas. Via muito bem como os mercadores faziam negócios, como os potentados iam à caça, os enlutados choravam seus mortos, as meretrizes se ofereciam, os médicos cuidavam de seus pacientes, os sacerdotes fixavam o dia apropriado para a semeadura, os namorados enlaçavam-se, as mães amamentavam os filhinhos... Mas nada disso era digno de ser olhado. Tudo era mentira; tudo, fedor; tudo recendia a falsidade, tudo criava a ilusão de significado, felicidade, beleza e, todavia, não passava de putrefação oculta. Amargo era o sabor do mundo. A vida era um tormento.

Um único objetivo surgia diante de Sidarta; o objetivo de tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazio de sonhos, vazio de alegria e de pesar. Exterminar-se distanciando-se de si mesmo; cessar de ser um eu ; encontrar sossego, após ter evacuado o coração; abrir-se ao milagre, com o pensamento desindividualizado - eis o que era o seu propósito. Quando todo e qualquer eu estivesse dominado e morto, quando, dentro do coração, se calassem todos os anseios e instintos, inevitavelmente despertaria no seu ser a quinta-essência, o último elemento, aquilo que já não fosse o eu, o grande mistério.

Em completo silêncio, Sidarta mantinha-se de pé, abrasado pelo sol do meio-dia, torturado pela dor, consumido pela sede. Mantinha-se de pé, até já não sentir nem dor nem sede. Em completo silêncio, mantinha-se de pé, na época das chuvas, com a água a gotejar-lhe dos cabelos, por sobre as espáduas gélidas, os quadris e as coxas enregeladas. De pé continuava o penitente, até que os ombros e as pernas deixassem de sentir frio, até que se calassem, sossegados. Em completo silêncio, quedava-se acocorado nas brenhas do espinhal. Da pele ardente pingava o sangue; das chagas, o pus. Hirto, imóvel, permanecia Sidarta, até que o sangue cessasse de correr e nada mais picasse ou ardesse.

Sidarta conservava-se sentado, em posição ereta. Aprendia a economizar o fôlego, a necessitar cada vez menos fôlego, a abster-se totalmente dele. Aprendia, partindo da respiração, a acalmar as pulsações do coração, a diminui-las até sobrarem somente poucas, quase nenhuma.

Orientado pelo mais idoso dos samanas, Sidarta exercitava-se na desindividualização e na meditação, segundo as novas regras da irmandade. Uma garça voava por cima do bambual e Sidarta acolhia-a na sua alma. Adejava por sobre as selvas e as serras, devorava peixes, sofria fome de garça, proferia grasnidos de garça, morria a morte das garças. O cadáver de um chacal jazia na areia da ribeira e a alma de Sidarta infiltrou-se nele, fez-se chacal morto, jazeu na ribeira, intumescida, fedorenta, putrefata. Dilaceravam-na as hienas, escorchavam-na os abutres. E ela transformou-se em pó que esvoaçou pelos campos. Em seguida, a alma de Sidarta regressava. Morrera, decompusera-se, transformara-se em pó, experimentara a triste embriaguez do circuito e Sidarta, acossado de nova sede, tornava a espreitar, qual caçador, uma lacuna que lhe permitisse esquivar-se do circuito, para descobrir o lugar onde se encontrasse o fim das causas e começasse a eternidade isenta de pesares. Mortificava os sentidos; aniquilava as recordações; distanciando-se do seu eu, introduzia-se em milhares de formas estranhas; convertia-se em bichos, carniças, pedras, tacos, águas e, ao acordar, sempre se reencontrava. Que brilhasse o sol ou a lua, Sidarta tomava a seu eu, a flutuar no circuito, a padecer sede, a dominar a sede, a sentir nova sede.

Os samanas ensinavam muita coisa a Sidarta e ele aprendia numerosos métodos de separar-se do eu. Trilhava a senda da desindividualização, através da dor, através do tormento voluntário e do triunfo sobre o sofrimento, sobre a fome, a sede, o cansaço. Desindividualizava-se, mediante a meditação, tirando do seu espírito toda e qualquer representação, até deixá-lo vazio. Aprendia a percorrer esse e outros caminhos, saindo inúmeras vezes do próprio 'eu' e conservando-se no 'não eu', horas e dias a fio. Mas, por mais que os caminhos o afastassem do eu, ao fim sempre o reconduziam até ele. Se bem que Sidarta milhares de vezes escapasse a si mesmo, para demorar-se no nada, nos animais, nas pedras, era inevitável o retorno, era impossível evitar a hora do reencontro, à luz do sol ou ao luar, na penumbra ou sob a chuva; sempre vinha a hora em que ele era novamente Sidarta, 'eu' e sentia mais uma vez a tortura do circuito imposto a ele.

A seu lado vivia Govinda, sua sombra. Trilhava as mesmas sendas. Afadigava-se da mesma forma. Só raras vezes falavam eles sobre outros assuntos que não aqueles que o serviço e os exercícios requeriam. De quando em quando, ambos passavam pelas aldeias, a mendigarem alimentos para si e para os seus mestres.

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